Paisagem Sonora e Escuta de Ryogoku Station
O texto a seguir pode não ter pé nem cabeça – são alguns recortes retirados de um artigo que eu escrevi quando estava na pós-graduação em musicoterapia (2007/2008). O contexto é a paisagem sonora e escuta reduzida nos arredores e interior de uma estação de trem em Tokyo, a Ryogoku Station. “Paisagem sonora” é um conceito desenvolvido inicialmente por Murray Schaefer (anos 60) e de forma geral, são os sons que emergem de um determinado ambiente. Pode ser composto por sons naturais, humanos e/ou artificiais. Povos e culturas variadas apresentam paisagens sonoras diferentes. Geralmente, as paisagens sonoras na qual vivemos, trazem sentimentos de pertencimento, porque fazemos parte daquele ambiente; outras paisagens sonoras nos remetem a experiências mais específicas por estarem relacionadas a fatos dos ambientes. Paisagens sonoras estão em constante transformação. As paisagens sonoras de antigamente eram formadas por sons naturais (sons de água, árvores ao vento, animais selvagens, pássaros, etc.); em seguida, vozes humanas passaram a entrelaçar essa paisagem (conversas, gritos, anúncios) e na medida em que a modernidade vai tomando conta, aumenta a presença de ruídos, sons artificiais, máquinas e sonoridades oriundas de produções tecnológicas. Uma proposta desafiante para constatar este conceito é apreciar a obra de John Cage, 4’33’’ (quatro minutos e trinta e três segundos). Por meio do silêncio, Cage cria um recorte no tempo e espaço, nos obrigando a ler o espaço (sons ambientes da sala de concerto) e com isso nos põe a observar (refletir) o mundo em que nossa existência se desenrola – assim, compomos nossa própria sinfonia.
Ryogoku Station
Arredores de Ryogoku
Na medida em que aproximamos da estação podemos constatar os elementos de sua destacada e rica paisagem sonora:
- Ruídos do trânsito local, comércio, música folclórica saindo dos restaurantes, passos dos pedestres, vozes, etc. compõem uma textura de background.
- Ruídos intermitentes de máquinas de auto-serviço para venda de tickets, comidas, (incrível como a comida de máquina japonesa é gostosa), bebidas.
Onigiri
- Vinhetas musicais de anúncio: chegada do trem, sinais de atenção, partida do trem. Anúncios falados no sistema de auto-falantes. Aqui incluem os anúncios padronizados (anunciando a chegada do trem e seu destino; cuidados ao abordar o trem) e os em tempo real provenientes da central de comunicações da estação.
- Os sons dos trens; as composições se articulando em forma de senóide; os sons oriundos do atrito das rodas sobre os trilhos. Estes, ocorrendo com distintas intensidades de “fade-in” e “fade-out”; definindo também um fluxo cíclico de “vai e vem”; ou somente uma energia indo para o infinito.
Plataforma de Ryogoku
A escuta sempre começa pela audição e vai se refinando; passa pela audição intelectual; a “estrada” vai se estreitando e prossegue de forma não estruturada, em uma viagem insólita pelo inconsciente.

Ao lado da estação está localizado o “Ryugoku Kokugikan” uma grande arena de sumô de Tokyo. Sempre cercada e tumultuada por profissionais da imprensa, fotógrafos, repórteres, rádio e TV na espera de algum lutador na berlinda aparecer.

Há treinos diários neste estádio e já era freqüente depararmos com lutadores a caminho da estação para pegar o trem. Vez ou outra emparelhava com um grupo deles; parecia uma manada de mamutes, arrastando aqueles chinelos de madeira (guetá) do comprimento de pranchas de skate. Quando coincidia de pegarmos o mesmo vagão dos lutadores era um sufoco; aquelas criaturas gigantescas emanavam um odor tão forte que ficou memorizado (êita suvaco da porra!).
Crise de identidade às avessas. Desejo relatar esta estranha sensação que vivenciava olhando as pessoas em Ryogoku e em qualquer lugar de Tokyo: “puxa, quanto japonês!”. O bilheteiro era japonês! O varredor da estação, japonês! O policial de plantão era japonês! Na vizinhança lembro-me de ter visto um posto de gasolina e uma borracharia e pela primeira vez na minha vida vi frentistas e borracheiro, japoneses! A multidão era integralmente composta por japoneses! (e tinha consciência que não estava no bairro na Liberdade em São Paulo).
Não sei bem o que estava acontecendo mas era algo parecido com uma crise de identidade ao inverso. No Brasil estava acostumado a ser o japa e a ser chamado de japa – nikkeys são geralmente tintureiros, feirantes, pasteleiros, mas, borracheiro e frentista de posto de gasolina destoavam do padrão.
(estamos em pleno interior da escuta…).
A seqüência de spots e vinhetas musicais mescladas com locução ora masculina ora feminina balizavam toda uma dinâmica de fluxo nas plataformas de Ryogoku Station. A colaboração dos respeitosos e disciplinados usuários era padrão.
E no balanço senoidal dos vagões do “JR” durante o curto percurso até a estação de Akihabara eu flutuava em pensamentos com essa trilha sonora: leituras visuais, conjecturas e refutações:
… era verão de 2007; eu repara nas mulheres calçando sandálias douradas ou prateadas, aparentemente dois números maior que o pé; vestindo meia… resultado: os dedos ficavam saindo pela frente, quase lambendo o asfalto… que coisa estranha!
… os homens em geral se vestiam de forma padronizada, algo parecido com o uniforme das escolas públicas de São Paulo nos anos 60 e 70, calça azul marinho e camisa branca
... me chamava atenção a homogeneidade cultural daquele povo cujos ingredientes era possível inferir: luta, respeito, disciplina – a prática permanente da cidadania. No Japão, quem não pratica a cidadania, os bons modos, o respeito, é simplesmente banido; seja japa, seja “gaijin” (estrangeiro).
… 30 mil suicídios em 2006! Pensei com meus botões: puxa vida, prato cheio prá musicoterapeuta…
Valendo-se um pouco de história, o Japão praticamente passou do feudalismo à modernidade (1901) – a exemplo de outros países optou por uma política expansionista territorial. Aparentemente nessa época toda potência possuía muitos territórios conquistados (EUA, Inglaterra, etc.). Conquistaram primeiramente a Coréia, depois as Ilhas do Império Czarista Russo, territórios da Manchúria – motivos pelos quais o levou a entrar na Segunda Grande Guerra. Sua política expansionista com foco na China incomodava bastante os EUA. O Japão já estava praticamente destruído quando em 1945 a Marinha Norte Americana atira uma bomba atômica em Hiroshima e logo depois outra em Nagasaki. Com a sua rendição, encerrou-se também sua campanha expansionista.
Passados apenas 14 anos depois que o General McArthur fez a ocupação com a assinatura da rendição, o Japão, nos anos 60 já era uma potência, estando entre os dez maiores países do mundo – desta vez, preconizando uma política expansionista econômica. Daqui para os dias atuais, todos conhecem a história: primeiramente os radinhos de pilha (Spica), televisores portáteis, depois a Sony com o Walkman, máquinas fotográficas Pentax, motocicletas e automóveis Hondas e Toyotas, teclados Casio, sintetizadores Roland…
Quando se fala em destruição do Japão na guerra, tinha uma idéia romântica a partir dos filmes e aulas desinteressantes de história na época do colégio. Contudo, um dia, a caminho da Brastel, junto com Antonio, fizemos um trecho alternativo e passamos por um templo no bairro de Sumida; resolvemos entrar; percebemos, pelo local, que era um memorial da guerra. As paredes do templo estavam forradas de fotografias aéreas mostrando a destruição. Passados alguns segundos em silêncio, tive a sensação que milhares de espíritos, vítimas desta guerra, meus ancestrais, vieram sussurrar em meus ouvidos.
Templo em Sumida
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Assim, pude entender que Tokyo também foi integralmente destruída e não somente Hiroshima e Nagazaki. Entendi também porque em teorias sobre traumas de guerra, o termo “ressignificação” aparece com freqüência. No caso de Hiroshima e Nagazaki, a destruição foi tão radical, que os sobreviventes tiveram que atribuir novos significados em termos de visão de mundo para poderem prosseguir com as suas vidas.
Pude sentir, na pele, a minha origem
nipônica. Contudo, pude confirmar a minha brasilidade
.
… 
O JR já deve ter parado em Akihabara.
Minha escuta da paisagem sonora termina aqui. Qual foi a sua?
Alguém arriscaria uma explicação do por que na história, não constatamos quaisquer eventos que possamos chamar de atentado terrorista de japoneses contra americanos?